Neuza Alves da Costa, 63 anos, não dirige mais o 179F — mas ainda aparece no terminal do Itaquera duas vezes por semana. "Venho ver se o pessoal está bem", ela explica, sentada no banco de concreto onde costumava esperar a escala. "Quinze anos nessa linha. Não se esquece de um dia para o outro."
O 179F liga Itaquera ao Centro de São Paulo em cerca de uma hora e vinte minutos, dependendo do trânsito na Radial Leste. São quarenta e sete paradas, milhares de passageiros por dia, e uma geografia que Neuza conhece pelo nome de quem desce em cada ponto.
Como começou
Neuza pegou a carteira de motorista em 2008, aos 45 anos. Viúva, com dois filhos adolescentes, precisava de renda estável. "Minha vizinha era cobradora. Disse que a empresa estava contratando mulher." Passou no teste na terceira tentativa — "a ré com trailer quase me derrubou" — e caiu na linha 179F em 2009.
Os primeiros meses foram duros. Passageiros que questionavam mulher no volante. Horários de pico que pareciam não ter fim. Mas Neuza tinha paciência aprendida na roça do interior da Bahia, de onde veio aos 18 anos. "No ônibus, igual na lavoura: quem grita perde a razão."
A rota como mapa de vidas
Na parada da Radial com Guilherme Giorgi, descia todo dia o Seu João, carteiro aposentado que ia visitar a filha no Belenzinho. Na Avenida Celso Garcia, a Dona Rosa, costureira, subia às seis e meia com a bolsa de retalhos. No Centro, perto da Praça da Sé, o grupo de trabalhadores da construção civil que embarcava às cinco da manhã em Itaquera.
Neuza cumprimentava cada um pelo nome. Sabia quem ia faltar na segunda depois do pagamento — "dia de resolver conta no banco". Sabia quem precisava de mais um minuto na parada porque a perna doía. "Motorista que não olha passageiro é só maquinista", ela diz.
"A linha 179F me ensinou São Paulo melhor que qualquer mapa. Cada parada é uma história que sobe e desce." — Neuza Alves da Costa
O dia que mudou
Em 2023, Neuza sentiu dor no ombro direito que não passava. O médico diagnosticou bursite e recomendou afastamento. Ela tentou voltar depois de três meses, mas o volante pesava demais. Aposentou-se por invalidez no fim do ano — "a palavra que eu mais odiei na vida", ela confessa.
No último dia de trabalho, passageiros antigos encheram o ônibus de bilhetes escritos à mão. Um dizia: "Obrigado por esperar na chuva." Outro: "A senhora é a melhor coisa das seis da manhã." Neuza chorou no volante — "só uma vez, no semáforo fechado".
Depois do volante
Hoje Neuza mora no mesmo apartamento em Itaquera, cuida do neto às tardes e faz fisioterapia duas vezes por semana. As visitas ao terminal são "para não surtar em casa", segundo a filha mais velha, que acha que a mãe deveria "aceitar que acabou".
Mas Neuza não vê como fim. Na terça passada, encontrou o Seu João na parada da Radial — ele agora pega outra linha porque o 179F mudou o itinerário. Dona Rosa continua subindo às seis e meia; deram um abraço longo quando viram Neuza sentada no banco.
A linha continua
O motorista que assumiu o carro dela é o Marcos, 34 anos, de Guarulhos. Neuza já deu dicas: "Cuidado com o buraco depois da ponte. E não briga com passageiro de manhã — ninguém acordou feliz." Marcos ri: "Ela ainda manda mais que o supervisor."
Perguntei se sente falta de dirigir. Neuza ficou em silêncio, olhando o 179F partir com o número iluminado no letreiro. "Sinto falta de ser útil de um jeito que eu sabia fazer bem", respondeu. "Mas enquanto eu conhecer gente nessa parada, ainda sou parte da linha. Só não estou mais no volante."