Às oito da noite de terça-feira, o som do sanfoneiro corta o ar úmido da Praça do Entroncamento. Não é um show — é uma roda. Pessoas de todas as idades formam pares no chão de pedra portuguesa, alguns descalços, outros de tênis gasto. O forró de pé da Boa Vista voltou depois de quase dois anos sem música nas terças.

Seu Manoel, 71 anos, coordena a roda há vinte e três anos. "A pandemia calou a gente", ele diz, ajustando o microfone improvisado. "Mas calar não é apagar. A primeira terça depois do retorno, veio gente que eu não via desde 2019."

Antes do silêncio

Toda terça, das oito às onze, a praça recebia entre oitenta e cento e vinte pessoas. Não havia ingresso — só a contribuição voluntária numa latinha para pagar o sanfoneiro e os refrigerantes. Comerciantes da Rua da Aurora fechavam mais tarde nas terças de forró. O bar do Seu Geraldo, na esquina, vendia cerveja gelada até meia-noite.

Em março de 2020, tudo parou. As praças fecharam. O sanfoneiro, Zé Maria, voltou para Caruaru. Seu Manoel ficou em casa, ouvindo discos de Luiz Gonzaga no aparelho de som que a esposa deixou ligado o dia inteiro "para não parecer tão vazio".

O retorno

A retomada não foi planejada em assembleia. Em novembro de 2025, Zé Maria ligou para Seu Manoel: "E aí, vamo testar?" Testaram numa sexta com quinze pessoas. Funcionou. Na terça seguinte, voltaram ao horário original. Desta vez, cinquenta pessoas. Na terceira terça, oitenta.

Entre os frequentadores novos está Camila, 26 anos, designer que se mudou para a Boa Vista em 2024. "Nunca tinha dançado forró de verdade", ela conta, ainda ofegante depois de uma música. "Aprendi aqui, com a Dona Cida me puxando pro meio da roda."

"Forró não é só dança. É o jeito que a gente se encontra sem precisar marcar no celular." — Dona Cida, 64 anos, frequentadora desde 2003

Quem dança

A roda mistura gerações. Seu Osvaldo, 78, dança com a neta de 19. O casal Pedro e Lúcia, que se conheceram na praça em 2008, ainda vem toda terça — agora com o filho de cinco anos dormindo no colo da avó num banco lateral.

Também há quem só assiste. Dona Francisca, 82, não dança mais por causa do joelho, mas não perde uma terça. "Venho ver se a praça ainda tem vida", ela diz. "Enquanto tiver sanfona aqui, eu venho."

Os que faltam

Nem todos voltaram. Seu Geraldo fechou o bar em 2022 — o filho vendeu o ponto para uma hamburgueria. Três frequentadores antigos faleceram durante a pandemia. Seu Manoel guarda uma foto deles num álbum de capa dura que mostra nas terças especiais.

"A roda é outra", ele reconhece. "Mas o espírito é o mesmo. Gente que quer ficar junto, sem precisar de motivo grande." Zé Maria concorda: "Forró aguenta luto. Aguenta alegria. Aguenta terça chuvosa com dez pessoas."

Próxima terça

Na noite em que acompanhamos a roda, choveu às nove e meia. Metade das pessoas foi para debaixo do toldo do quiosque. A música continuou. Parecia menor, mais íntima — como se a praça tivesse encolhido para caber só quem realmente queria estar ali.

Seu Manoel promete que a roda segue "enquanto eu tiver perna e Zé Maria tiver fôlego na sanfona". Camila já convidou duas amigas para a próxima terça. Dona Francisca disse que vai trazer cadeira mais confortável. O forró voltou — não como antes, mas como dá.